Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Cap. I



Vou começar esta história com um aviso, não tem um final feliz, na verdade eu nunca gostei de histórias meigas com finais felizes, a minha historia não é um romance de novela, nem um conto de fadas e não tem nada de fofo como nos filmes de romance. Minha história aconteceu numa noite comum, no fim de um dia aparentemente comum, e com um cara comum, no caso eu, por falar nisso eu nem me apresentei, prazer meu nome é Lucas, e esta é a minha história.


Em um piscar de olhos

Cap. I

Terça - feira, feriado, dia dos namorados, irônico não? Pois é, até hoje eu também acho, lá estava eu, voltando do trabalho. Eram mais ou menos 9h pra 10h da noite, não recordo bem, estava frio, vestia meu casaco surrado que minha ex-namorada me havia presenteado. O nome dela era Melody, lindo nome não acha? Eu acho. Mas a única coisa boa que me restou dela, era aquele velho casaco que me esquentava muito em noites frias como aquela.
Eu estava muito exausto naquele dia, meu chefe havia me dado uma bronca por me pegar usando o celular escondido, ameaçou me por pra fora, mas na altura do campeonato eu nem estava mais me importando com aquele emprego, na verdade eu odiava, eu era secretário de um advogado, seu nome era Paulo, Doutor Paulo Castanhari, homem de caráter duvidável e adorava um caso polêmico e desafiador. Minha mãe havia me ligado às 8 da manhã para me lembrar que eu tinha que arrumar uma namorada para não passar mais um dia dos namorados sozinho, e meu vizinho maldito decidiu fazer uma reforma na sua casa bem neste dia, resultado? Assim que abri a porta do apartamento tinha vários móveis espalhados, tentei dialogar com ele, mas de nada adiantou; o taxi que peguei para ir trabalhar ficou preso em um engarrafamento e perdi o horário, dando mais motivos para o meu chefe reclamar, enfim, tive um dia difícil.  Andei o caminho todo pensando se não seria melhor pedir logo demissão, afinal eu poderia arrumar coisa melhor, sem falar que pegaria meu seguro desemprego, mas eu precisava daquele emprego, seria muito difícil arrumar outro.
            Eu andava distraído em uma rua deserta, um vento gelado passou arrepiando meu corpo até a espinha, meu boné acabou caindo e quando abaixei pra pega-lo vi uma garota correndo em direção a ponte Bandeira branca, que por sinal é uma ponte bem alta, ela subiu na lateral da ponte e ficou de pé, parecia que ia se jogar, fiquei em estado de choque, pensei milhares de coisas naquele momento, mas alguma coisa dentro de mim me impulsionou pra correr em sua direção.
- Não faça isso! Gritei.
Ela olhou pra mim assustada, seu rosto era lindo, o vento frio levantava seus cabelos longos e loiros, seus olhos estavam vermelhos, aparentava ter chorado muito, mas nem por isso perderam sua beleza, eles eram azuis como o céu.
- Fique longe! Gritou ela com voz chorosa.
- Por que você esta fazendo isso menina? Não vale a pena!
Ela usava um pijama branco de bolinhas, parecia ter saído da cama, estava aparentemente muito abalada e nervosa, dei um passo à frente.
- Já disse pra ficar longe! Gritou ela levantando um dos pés.
- Não! Não pule! Calma... Eu só quero conversar. Dei mais um passo a frente.
- Não tenho nada pra conversar com você! Vá embora! Deixe-me em paz!
- Qual seu nome?
- Não te interessa! Deixe-me em paz! Gritou ela olhando pra baixo.
A queda era feia, havia logo abaixo uma avenida movimentada, um deslize e ela cairia e morreria com certeza.
- Não faça isso garota, menina... Qual seu nome? Meu nome é Lucas.
- Me deixa... Em paz!
- Pode me dizer seu nome? Não é educado eu dizer o meu e você não dizer o seu.
- É... Clara.
- Prazer Clara. Lindo nome. Sorri, mas por dentro estava muito nervoso, não tão nervoso quanto ela claro.
- Prazer... Por favor, agora vá embora.
- Por que uma moça tão bonita quer pular dessa ponte tão alta?
- Por que as outras na cidade são baixas demais e provavelmente eu sobreviveria. Respondeu ela olhando pra baixo.
- Ah sei... Respondi com um leve sorriso.
- Qual a graça?
- Nada, por que não desce daí, esta noite está muito fria, quer tomar um café?
- Tudo que eu quero agora... É morrer. Disse ela abrindo os braços e caindo.
- Não! Gritei pulando em cima dela.
Tentei agarrar seu corpo só que já era tarde demais, acabei caindo junto com ela, tudo ficou devagar, eu conseguia ver o chão cada vez mais próximo, dizem que sua vida passa diante de seus olhos no momento da sua morte, em um piscar de olhos. Bem... A minha não.
Fechei os olhos para o impacto, mas não senti nada, simplesmente abri meus olhos e eu estava na minha cama, no meu quarto, eram 7h da manhã, eu não entendi nada do que tinha acontecido, e a garota? Ela se salvou? Como fui parar no meu quarto? Deduzi que tudo foi apenas um sonho, mas eu não me lembrava de ter ido para casa, levantei, escovei os dentes, preparei meu café, ouvi barulhos de marretas batendo na parede do vizinho.
- Ainda essa reforma? Que droga? Resmunguei.
Às exatas 8h da manhã meu celular tocou, assim que atendi tive uma surpresa, era minha mãe.
- Lucas! Ainda bem que já está acordado! Sabe que dia é hoje?
- Oi mãe, bom dia pra senhora também, eu sei sim, hoje é quarta - feira...
- Pelo visto você está mesmo desligado do mundo não é! Hoje é terça - feira! E não é uma terça - feira qualquer! É dia dos namorados! Então trate de sair hoje e procurar uma namorada, para assim você deixar de passar o dia dos namorados sozinho!
Ao ouvir aquilo eu senti um arrepio das pontas pés até o fio de cabelo.
- Terça - feira? Mãe, a senhora que está desligada do mundo! Hoje é quarta - feira! Dia dos namorados foi ontem! E para de querer opinar na minha vida amorosa!
- Não fale assim com a sua mãe garoto! E hoje é terça - feira sim senhor! Você andou bebendo? Não vá terminar que nem seu pai!
Rapidamente liguei a TV e o rádio, e era verdade! Realmente era terça - feira dos namorados, fiquei sem reação, sem palavras, sem saber o que pensar, minha mãe ficou tagarelando no telefone, mas até hoje não sei o que ela estava dizendo, pois eu só conseguia pensar naquilo e no que diabos havia acontecido. Déjà Vu? Premonição? Eu não fazia ideia. Terminei de tomar meu café da manhã e assim que abri a porta, me deparei com inúmeros móveis na minha porta, os mesmos do dia anterior, mas houve mesmo dia anterior? Ontem foi segunda - feira ou terça - feira? Eu olhava para aqueles móveis me sentindo meio pasmo e confuso.
 - Oi vizinho, desculpa pela bagunça, prometo que no fim do dia arrumo tudo. Disse meu vizinho Gordon. 
- Tudo... Bem.
- É sempre bom dar uma revirada na casa, acabamos achando objetos perdidos, sabe agora pouco achei esse brinquedo antigo da minha Polly. Ela disse nem se lembrar dele, essas crianças de hoje em dia, com 12 anos ela não quer mais brincar de boneca sabe, só querem saber de tecnologia e ...
- Tenha um bom dia senhor Gordon. O interrompi descendo as escadas rapidamente.
Eu não podia acreditar em tudo aquilo, eu concluí que tudo não passou de um sonho, fiquei caminhando pela rua, pensativo, logo olhei para o relógio, iria me atrasar de novo, mas se o dia de ontem não aconteceu, significa que não me atrasei ontem, então tentarei chegar a tempo hoje.
- Taxi! Gritei fazendo sinal para o primeiro taxi que vi.
O taxista parou, fui em direção ao carro, abri a porta e entrei.
- Pra onde senhor?
- Avenida Bandeirantes, prédio da Techmatica. Rápido!
- Tentarei ser o mais rápido possível, mas com este transito...
Fiquei olhando pela janela, pensativo, não iria me atrasar! Não receberia reclamações daquele insuportável, meus pensamentos se debatiam na minha mente, tudo não parecia fazer sentido algum, sentir o taxi parar, mas não era a o meu destino.
- Por que paramos?
- Desculpe senhor, engarrafamento.
Eu nem tinha visto o rosto do motorista, estava tão decidido a chegar a tempo que não reparei, ele ainda olhava para frente, eu só via seus cabelos grisalhos, não me recordava se o taxista do meu “sonho” tinha cabelos grisalhos, não costumo ser muito observador, na verdade se tem uma coisa que não sou, é observador.
- Falta muito? Perguntei.
- Pra ser sincero senhor, este engarrafamento parece que vai demorar...
- Droga! Não posso chegar atrasado!
Eu tentava ver seu rosto, a luz do sol da manhã refletia no vidro do carro, ficava mais difícil ainda enxergar seu rosto.
- Droga. Eu deveria ter pegado um atalho. Resmungou ele.
- Atalho? Que atalho?
- Poderia ter virado na primeira esquina, seria uns dez metros de contra mão, mas chegaríamos a pista principal que é bem menos movimentada.
- E por que não fez isso?
- Por que são contras regras. Disse ele virando-se e olhando para mim.
Sim, era o mesmo taxista, eu fiquei apavorado, meu coração acelerou, tinham centenas de pensamentos passando em minha cabeça naquele momento, eu tive certeza que eu tive uma premonição, mas eu sempre fui um homem cético, mas aquilo estava indo contra todos os limites da razão.
- Algum problema senhor? Perguntou o taxista desconfiado.
- Desculpe... Eu... Vou descer aqui.
- O quê?
- Me desculpe. Tirei o dinheiro da corrida e entreguei a ele.
Desci do carro desnorteado, eu estava muito longe do prédio onde trabalhava, mas mesmo assim eu comecei a correr, eu não queria chegar atrasado e ao mesmo tempo, eu corria de desespero, como se estivesse correndo de tudo aquilo, podia perceber as pessoas na rua olhando para mim enquanto eu corria, mas eu simplesmente não conseguia mais parar, olhei para o relógio, eram 08h40min da manhã, eu tinha que chegar ao trabalho as 09h em ponto, no meu sonho eu havia chegado às 09h18min, tinha me atrasado 18 minutos, tentaria chegar a tempo.
Atravessei a rua sem olhar para os dois lados, os carros paravam bruscamente para não me atropelarem, mas nem me importava, eu tinha que chegar a tempo, faria diferente daquele sonho, não deixaria ser controlado pelo destino assim, de maneira nenhuma!
- Vai dar tempo! Vai dar tempo! Olhei novamente para o relógio, eram 09h10min.
- Eu chagarei antes de oito minutos! Pensei comigo mesmo.
Eu já conseguia ver o prédio, corria esbarrando nas pessoas, não conseguia parar, eu estava determinado a burlar o destino, nunca fui de seguir regras, sempre fui de quebrá-las, olhei novamente para o relógio, eram 09h16min, eu já enxergava o portão, iria dar tempo, me enchi de coragem e até consegui correr mais rápido. Passei pelo portão como uma flecha, nem dei bom dia ao senhor Fabio, o porteiro do prédio, eu simplesmente corria em direção ao elevador quando me choquei com alguém.
Voaram papéis pra todo lado, eu cai em frente ao elevador, e a pessoa com quem me choquei caiu próximo as escadas.
- Você é maluco?! Berrou um homem de terno preto e que usava óculos, ele se levantou recolhendo seus papéis.
- Desculpe! Desculpe! Repeti várias vezes entrando no elevador.
- Hei! Volte aqui! Ajude-me a recolher meus papéis...
Antes que ele pudesse completar a frase a porta do elevador se fechou, eu pensei em olhar para o relógio, mas tinha medo, será que iria dar tempo? Será que cheguei atrasado? Minhas mãos suavam, minhas pernas tremiam, fui levantando devagar meu braço, fui olhando aos poucos em direção a meu punho, conseguia ver vagamente as horas, eram oito e dezoito. 
A porta do elevador se abriu, e para minha surpresa e espanto, meu chefe estava no andar aguardando o elevador, ele olhou para mim com um olhar de desaprovação, deu um longo suspiro e olhou para o relógio.
- São 09h18min senhor Oliveira. Até onde sei o horário estipulado para o senhor comparecer a sua mesa são às nove horas em ponto.
- Sim senhor Paulo, eu sinto... Muito. Eu não argumentos nem raciocínio suficiente para me defender, eu estava apavorado com tudo aquilo, seria possível que o destino estava me controlado como uma marionete?
- Vá para sua mesa imediatamente, quando eu voltar, quero você na minha sala. Estamos entendidos?
- Sim senhor.
Saí do elevador de cabeça baixa, fui até meu escritório, tranquei a porta e sentei, eu não sabia o que estava acontecendo, eu não via a hora daquele dia terminar! Mas veio em minha mente aquela garota da ponte, se tudo acontecer como no meu sonho, ela iria se jogar da ponte naquela noite, eu tinha que impedir! O destino não iria me controlar!
- Eu faço meu destino! Gritei batendo sobre a mesa.

Todos no escritório ficaram calados olhando perplexos para meu escritório, eu gritei tão alto assim? Ou foi a tapa que dei sobre a mesa? Seja lá o que tenha sido eu sentei e iniciei meus trabalhos. Mas eu estava decidido, nada mais seria igual aquele sonho. Tudo iria ser diferente!



5 comentários: